Nesta última semana o cantor japonês Oka Shiro realizou uma apresentação musical para índios da etnia da Kaingang, na Reserva Indígena Apucaraninha, na zona rural de Londrina. Um grupo da Escola Indígena Luiz Penky Pereira também apresentou uma canção feita por eles. O intercâmbio cultural foi promovido pelo Grupo Sansey, que na ocasião doou um aparelho de TV e DVD para a escola.
O cantor foi acompanhado por uma comitiva do Grupo Sansey formada pelos representantes do grupo, Mity Shiroma e Luiz Shiroma, pela professora Toshiko Okuda, ex-produtora do canal japonês NHK, e por um dos mais antigos integrantes do grupo, Cláudio Shizuo Furukawa. A equipe de jornalismo do Paraná Shimbun acompanhou a comitiva para conferir a visita.
| Hugo Kitanishi |
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| Oka Shiro: empatia e canções japonesas que têm como fundo trabalho de cunho beneficente |
A recepção foi feita por Renato Kriri, presidente da Associação de Moradores da Reserva, já na estrada de terra que leva ao local. Na reserva, Gilda Quitá, esposa de Renato, esperava o grupo para começar a preparar o almoço. Com olhares curiosos, os moradores observavam a chegada da comitiva e a preparação do espaço para as apresentações do cantor e do grupo caingangue, que seriam realizadas após a refeição. Gilda preparou o êmî, uma espécie de farofa com condimentos, o mán, o nár e o gry, pratos feitos a partir de plantas encontradas na própria região. Acompanhando os pratos típicos, arroz e lingüiça.
A apresentação teve início às 14 horas. Cerca de 200 crianças puderam conhecer um pouco da cultura japonesa por meio de canções infantis, tradicionais e folclóricas. Oka Shiro teve grande empatia com o público e apresentou nove canções, entre elas Akatonbo, Yuyake Koyake, Furusato e Nadasousou (canção típica de Okinawa). Com a canção Shiawasenara Te wo Tatakou (versão em japonês da canção Se Você Está Feliz Bata Palmas) fez todos se levantarem e acompanharem a música com palmas e batidas de pés. Ondo, uma canção de composição própria e com ritmos bem tradicionais, foi a canção que finalizou a apresentação do cantor.
Depois, foi a vez do grupo caingangue, que também apresentou uma canção de autoria própria. Difundida entre os moradores, a letra não foi apenas cantada pelos alunos, mas também por colaboradores, moradores e o diretor da escola. O canto foi feito na língua caingangue e também no português. A canção versa sobre o histórico indígena, falando da existência dos índios antes e depois da chegada do homem branco e da devastação da natureza que trouxe consigo.
Após as trocas culturais, houve trocas de presentes. O DVD e a TV, oferecidos pelo Grupo Sansey, foram recebidos pela Secretária Municipal de Educação de Londrina, Carmen Sposti, e pelo diretor da escola, João Santos de Oliveira. Os caingangues ofereceram ao cantor Oka Shiro e à professora Toshiko Okuda cestos feitos pela comunidade. Os cestos são a materialização do trabalho realizado pelo Projeto do Artesanato, que utiliza fibras naturais na confecção dos materiais.
De acordo com Carmem, a partir desse encontro os professores terão condições de elaborar comentários, produzir textos e trabalhos vinculados à ação pedagógica da escola, explorando o tema da diversidade cultural. “Esta é uma comunidade que teve um crescimento muito grande nestes últimos tempos. A intenção é que a escola possa oferecer o ensino fundamental completo, até a oitava série. Hoje só existe o primário, que vai até a quarta série”, contou a secretária.
Para a supervisora da escola, Marilene Bandeira, estas formas de apresentação representam uma maneira de divulgação das culturas japonesa e indígena. “É bom porque nós nunca escutamos músicas japonesas e foi gerada uma boa oportunidade”, observou.
Segundo o presidente da Associação de Moradores, o intercâmbio cultural que se realiza é imprescindível para o respeito entre as nações. “Até nos grupos indígenas existem diversas etnias e línguas. É importante para a comunidade conhecer outras línguas. Nossos filhos precisam ter esse tipo de compreensão”, avaliou o líder comunitário.
O Grupo Sansey é uma organização constituída por nikkeis e não-nikkeis de Londrina e região, que procuram promover a cultura japonesa por meio do canto, dança, instrumentação musical, entre outras formas de divulgação, como eventos, festas e shows.
Recuperando a cultura e a dignidade
A Reserva Indígena do Apucaraninha conta com aproximadamente 1400 habitantes, com total de 346 famílias. O local encontra-se a cerca de 80 Km de Londrina e também abriga um dos pontos turísticos da cidade, o Salto do Apucaraninha. Além do Projeto do Artesanato, que procura confeccionar cestos e balaios com fibras naturais e ao modo da cultura tradicional dos Kaingangs, outras iniciativas têm objetivo de fazer um resgate cultural e da dignidade humana.
O Projeto Gojfã to Vêne, que na língua portuguesa significa Falando Sobre Bebida, existe desde 2002. “O número de índios que têm problemas de alcoolismo é muito grande. Por este motivo desenvolvemos este projeto”, explicou a antropóloga Marlene de Oliveira. O projeto tem como público alvo não apenas adultos, mas crianças e adolescentes.
Recentemente o time de futebol sub-11 treinado pelo técnico Carlos Alberto dos Santos, ganhou um amistoso com alunos do Colégio Londrinense por 4 a 2.
O time de Carlos Alberto também integra o Projeto Gojfã to Vêne como forma de trabalhar com crianças e adolescentes a questão do alcoolismo e das drogas. “A escolinha de futebol é uma estratégia de prevenção. Essa é a primeira vez que temos um profissional-técnico integrando o projeto”, relatou Marlene. O projeto trabalha de forma integrada com Unidades Básicas de Saúde, com desenvolvimento de oficinas voltadas para professores e elaboração de cartilhas.
Aparecido Pãjû Marcolino, 50 anos, é nativo da reserva, e Coordenador de Cultura da comunidade. Ele descreve que há mais de dez anos trabalha com a cultura na reserva. Com a percepção de que os mais novos estavam esquecendo os próprios costumes caingangues, Pãjû foi atrás dos avós e bisavós para iniciar um trabalho de valorização cultural. “Os mais velhos explicaram como eram as danças, a culinária, e começamos a trabalhar com a comunidade”, explicou.
Pãjû conta que um grupo da comunidade teve participação em oito cenas do filme Gaijin 2, de Tizuka Yamazaki, que foi em grande parte filmado em Londrina. Os caingangues da reserva também produziram o vídeo documentário A Pesca Pare, de 26 minutos. Segundo o coordenador, existe um projeto, com realização prevista para setembro, de gravação de um filme com duração entre 40 e 60 minutos. “Temos acordo para tentarmos rodar o filme no Globo Rural e TV Cultura”, revelou Pãjû.
Fonte: Paraná Shimbun
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